19.8.04

 

Efemérides da Pátria e a Democracia

A passagem de mais um aniversário da grande batalha de afirmação dos Portugueses, em face dos seus vizinhos, então inimigos, Castelhanos, suscitou algumas breves referências na Comunicação Social. Em quase todas elas, porém, é notória uma preocupação em suavizar os termos e o alcance do significado da confrontação, que haveria de consolidar, por muitos anos, a soberania portuguesa, claramente vincada na completa vitória das suas armas.

Muitos já celebraram esse magnífico feito, que Camões, mais que todos, de forma sublime, largamente tratou no Canto IV d’ Os Lusíadas, numa vintena de estrofes lapidares, que os alunos do antigo Ensino Secundário – obrigatoriamente – teriam de ler e comentar, para lograrem aprovação no exame de Português do seu exigente 2º Ciclo curricular.

Costumam os mais cépticos, supostamente de mentalidade evoluída, cosmopolita, desvalorizar estes temas, sob o pretexto de que eles hoje pouco ou nada contribuem para a nossa moderna orientação como Comunidade, mais apostada em alcançar crescentes níveis de conforto material, ainda que a troco do abandono de uma honrada dignidade, convenientemente esquecida ou subalternizada, sobretudo se a manutenção dessa mesma dignidade implicar sacrifícios ou comportar a assunção de determinados riscos, incómodos, como soem ser, desde sempre, os riscos e os sacrifícios da vida.

Da mesma forma como progressivamente deixámos de comemorar o 1º de Dezembro de 1640, transformado em mais um oportuno dia feriado, sofregamente gozado, em particular na nova era democrática pós-25 de Abril, também nos fomos alheando do valor simbólico do 14 de Agosto de 1385, obliterando o significado profundo de ambas as datas, intimamente ligadas no trajecto histórico dos Portugueses.

Dir-se-á que cada época segrega a sua própria mentalidade e a presente elegeu a busca do êxito fácil, do prazer e da comodidade, como objectivos primaciais da sua motivação, a que tudo o resto se deverá subordinar. Assim parece, de facto, não obstante alguns – poucos – teimarem ainda em apontar outras metas e diferente comportamento, invariavelmente, sem êxito na sua tarefa, porque fora do espírito do momento.

Entretanto, para que não se caia em desesperos estéreis, inoperantes, convém lembrar que a Humanidade é já bastante velha e, para aqui chegar, ao encanto de tanta comodidade, passou por períodos extremamente duros, cruéis, bárbaros, bem piores que os actuais, deles se recompondo, umas vezes mais depressa, outras de forma mais lenta, ainda que à custa de acerbo sofrimento e incontáveis sacrifícios.

Custa, por vezes, a crer na espantosa capacidade de redenção, de regeneração e de renovação desta nossa cansada Humanidade, com nítidos sinais de exaustão, que, ao longo do seu já extenso percurso civilizacional, tantas e tão soberbas provas tem dado dessa tão inquebrantável quanto surpreendente vitalidade. Talvez que os erros, os desacertos, os desconcertos, para usar um termo de sabor quinhentista, de certas épocas sejam mesmo necessários a essa, até hoje, permanente renovação.

No presente, em Portugal, porventura mais que em outras partes do mundo, vive-se um período de forte descrença colectiva, que pode ser de mau prenúncio para a vida democrática da Nação. É certo que o enquadramento político extra-nacional, em que nos inserimos, parece consentir um confortável sentimento de amparo democrático, dada a prevalência de sistemas políticos baseados nos princípios da liberdade e da livre escolha dos cidadãos nos actuais países da União Europeia, alguns mesmo com regimes de longa e bem sucedida prática democrática.

Contudo, a existência de um sistema formalmente democrático não é, nem nunca foi, garantia de desenvolvimento e coesão das respectivas sociedades, como tantos exemplos no-lo evidenciam por esse mundo fora. Em muitos lugares, o sistema democrático ficou cativo de supostas elites ou grupos de pressão, que, por via dos seus excessivos privilégios, conseguem influenciar e mesmo determinar as opções políticas dos responsáveis governativos, apesar da obrigação destes em atender aos interesses maioritários e superiores da comunidade que os elegeu.

Parece ser esta a grande ameaça aos actuais sistemas democráticos representativos : a multiplicação dos poderes fácticos, eximidos ao controlo democrático, mas carregados de elementos de sedução, pelos privilégios que concedem a quem deles se enamora, vai progressivamente condicionando a actuação dos Governos e demais instituições, na sua origem de base democrática, porém cada vez mais distantes, no seu ideário e, sobretudo na sua prática, da raiz democrática que os gerou.

O presente descaso da comemoração e do culto das efemérides da Pátria, aparentemente desligado do contexto da desilusão com o sistema democrático, reflecte antes a debilitação geral das comunidades nacionais, que, por este rumo, se vão paulatinamente de si mesmas alienando, na busca incessante de sucedâneos da sua verdadeira vocação, ficando por isso completamente à mercê das artes, mais ou menos habilidosas, dos demagogos que se sucedem no poder, por elas, na verdade, legitimado.

É, por conseguinte, imperioso trabalhar para a inversão desta tendência, fazendo uso de todos os mecanismos e recursos do sistema democrático, procurando despertar o sentido cívico dos cidadãos eleitores, inculcando-lhes a noção da sua forte responsabilidade na condução das suas comunidades, sob pena de cairmos numa apatia social cada vez mais deprimente, desesperante e perigosa, de onde, aliás, costumam emergir os monstros atávicos adormecidos nas nossas consciências.

António Viriato – Óbidos, 19 de Agosto de 2004

Comments:
caro amigo, que satisfação me causou a retomada de vosso contato, tirei uns dias de descanso e agora estou de volta ao trabalho. quanto ao seu texto, considerei-o primoroso, como sempre. minha mulher, professora de História e neta de portugueses certamente o apreciará também. estamos agora tomando contato com a obra de um grnde filósofo e historiador portugues, Pinharanda Gomes, que considero de grande brilhantismo. oportunamente escreverei a respeito. espero que daqui para a frente nossos contatos sejam mais constantes. Um grande abraço para você. do amigo Carlos (basilides)
 
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